Excesso de umidade aumenta risco de doenças nas lavouras de trigo do Sul
Chuvas passaram de 100 milímetros em algumas áreas nos últimos dez dias, enquanto a previsão indica novas precipitações e temperaturas de até 7°C acima da média.
As condições de umidade do solo permanecem elevadas em importantes regiões produtoras brasileiras após um período de chuvas acima da média. Nos últimos dez dias, os maiores acumulados foram registrados no Sul, com volumes superiores a 100 milímetros em algumas localidades. Também houve precipitações acima da média em áreas de Mato Grosso do Sul, São Paulo e do Nordeste.
O excesso de umidade coloca as lavouras de trigo do Sul no centro das atenções. Embora os indicadores atuais ainda apontem condições satisfatórias de desenvolvimento, a combinação entre solo úmido e ocorrência frequente de chuvas pode aumentar a pressão de doenças e limitar o potencial produtivo caso o padrão persista.
De acordo com dados de sensoriamento remoto da EarthDaily, a mudança no comportamento das temperaturas também foi significativa ao longo de agosto. Na primeira semana do mês, algumas áreas produtoras registraram temperaturas até 5°C acima da média. Na semana seguinte, os valores chegaram a ficar até 5°C abaixo da normalidade. “O comportamento das chuvas e das temperaturas merece atenção especialmente nas áreas produtoras de trigo do Sul do país. Na comparação entre a primeira e a segunda semana de agosto, houve uma mudança significativa no padrão térmico da região. Enquanto na primeira semana foram registradas temperaturas de até 5°C acima da média, na segunda semana os termômetros passaram a registrar valores de até 5°C abaixo da normalidade”, explica Felippe Reis, analista de culturas da EarthDaily.
No Rio Grande do Sul, uma onda de frio atingiu o estado no último fim de semana, com temperaturas inferiores a 5°C. Até o momento, entretanto, a queda não representa motivo de preocupação para o potencial produtivo das lavouras.
As condições observadas são semelhantes às registradas em períodos anteriores em que a produtividade foi considerada satisfatória. Outro indicador que sustenta essa avaliação é o Índice de Vegetação por Diferença Normalizada (NDVI), que permanece acima dos níveis observados no ciclo anterior.
No Sudoeste do Rio Grande do Sul, o índice indica boa dinâmica da vegetação e condições satisfatórias nas lavouras. O principal ponto de atenção é o volume de chuva. A manutenção de condições excessivamente úmidas pode aumentar a ocorrência de doenças e, dependendo da persistência do cenário, afetar o potencial produtivo.
No Paraná, as precipitações também permanecem acima da média, especialmente desde julho. O padrão observado é compatível com sinais associados ao El Niño, mas a comparação com anos anteriores mostra que a resposta do regime de chuvas paranaense ao fenômeno não é uniforme.
Em 2015, os acumulados registrados nesta mesma fase do ciclo eram significativamente superiores aos atuais. Já em 2023, as chuvas foram mais contidas durante a primeira metade do período e ganharam intensidade posteriormente.
A diferença entre os anos considerados análogos indica que o comportamento da precipitação no Paraná apresenta maior variabilidade, o que reduz a possibilidade de antecipar a evolução do regime de chuvas apenas com base na influência do El Niño.
Enquanto o excesso de umidade exige atenção nas áreas de trigo, as regiões produtoras de cana-de-açúcar enfrentam uma condição oposta. Em agosto, os volumes de chuva permaneceram baixos na maior parte da zona canavieira brasileira, favorecendo o avanço das operações de colheita.
As interrupções ocorreram de forma pontual. No Paraná, em Mato Grosso do Sul e no sul de São Paulo, foram registrados volumes superiores a 11 milímetros em 7 de agosto. A chuva chegou a limitar temporariamente as atividades de campo, mas não alterou o padrão predominante do mês. “Houve, entretanto, interrupções pontuais. No Paraná, em Mato Grosso do Sul e no sul de São Paulo, foram registradas chuvas superiores a 11 milímetros em 7 de agosto, condição que pode ter limitado temporariamente a colheita da cana-de-açúcar. Nos demais dias do mês, porém, a precipitação permaneceu baixa, permitindo a continuidade das operações”, afirma Reis.
O contraste entre as duas culturas mostra como o mesmo período climático pode produzir efeitos distintos de acordo com a fase do ciclo e a necessidade hídrica de cada atividade. Enquanto o trigo entra em uma faixa de maior atenção para o excesso de umidade, o tempo seco cria condições mais favoráveis para a colheita da cana.
As projeções para os próximos dez dias indicam a continuidade de um cenário de atenção no Sul. Tanto o modelo europeu ECMWF quanto o norte-americano GFS apontam novos volumes de chuva para a região, embora inferiores aos acumulados observados nas semanas anteriores.
Ao mesmo tempo, os modelos indicam o fortalecimento de um padrão de temperaturas acima da média. Em algumas áreas, os valores podem ficar entre 3°C e 7°C acima da normalidade.
A combinação entre temperaturas mais elevadas e novas chuvas deve manter a umidade do solo acima da média em grande parte das regiões produtoras de trigo. Do ponto de vista hídrico, as condições continuam favoráveis ao desenvolvimento das lavouras, mas o excesso de água passa a ser o principal fator de risco.
A preocupação está menos relacionada à disponibilidade de água e mais à permanência da umidade. Solos saturados, associados à frequência de chuvas e ao aumento das temperaturas, podem criar condições favoráveis ao desenvolvimento e à disseminação de doenças.
Por isso, os próximos dias serão importantes para definir se o cenário atual continuará sendo predominantemente favorável ao trigo ou se a combinação de chuva, umidade elevada e temperaturas mais altas começará a produzir impactos sobre o potencial produtivo.
BATANEWS/OPR

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