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Quando o patrocínio vale mais que a vida das famílias destruídas pelas bets

Clubes pressionam contra proibição dos cassinos online enquanto vício espalha dívidas, depressão e sofrimento

Quando o patrocínio vale mais que a vida das famílias destruídas pelas bets

A reação de alguns dos maiores clubes do futebol brasileiro contra a possível proibição dos cassinos online expõe uma inversão preocupante de prioridades. Flamengo, Palmeiras, Vasco, Fluminense, Cruzeiro, Santos, São Paulo e federações como a Paulista e a Carioca levantaram a voz para defender contratos, patrocínios e receitas. Faltou a mesma indignação diante das famílias destruídas pelo vício.

Os clubes alegam que o fim ou a forte restrição das plataformas provocaria prejuízos milionários ao futebol. Estimam que aproximadamente R$ 1 bilhão em patrocínios esteja em jogo. É muito dinheiro. Mas nenhuma cifra pode ser colocada acima da saúde mental, da segurança financeira e da vida dos brasileiros.

O futebol existia antes das bets. Flamengo, Santos, São Paulo, Vasco, Palmeiras, Fluminense, Cruzeiro e tantos outros construíram suas histórias, conquistaram títulos e formaram multidões de torcedores quando as casas de apostas não ocupavam camisas, estádios, transmissões e redes sociais. Dizer que o esporte corre o risco de acabar sem esse dinheiro é admitir uma dependência perigosa que os próprios dirigentes ajudaram a criar.

As plataformas não vendem apenas entretenimento. Vendem a ilusão de dinheiro fácil. Estão disponíveis durante 24 horas, dentro do celular, com depósitos instantâneos, estímulos permanentes e jogos desenhados para manter o usuário conectado. Quando a pessoa perde, recebe incentivos para continuar. Quando ganha, é levada a acreditar que descobriu um caminho para enriquecer. A conta quase sempre termina a favor da casa.

Dados obtidos no Ministério da Fazenda indicam que 43,8 milhões de brasileiros já haviam apostado nessas plataformas até agosto de 2026. Isso representa cerca de 27% da população adulta. O crescimento foi de 75,2% em apenas oito meses. Enquanto o setor amplia receitas, famílias convivem com dívidas, conflitos domésticos, ansiedade, depressão e casos extremos de autodestruição.

Os clubes afirmam reconhecer os danos sociais, mas defendem fiscalização, educação e mecanismos de proteção, sem interromper o mercado regulamentado. O argumento parece razoável até ser confrontado com a realidade. A regulamentação não impediu a multiplicação das apostas, a publicidade sufocante nem a transformação de jogadores, narradores, influenciadores e ídolos em vendedores de jogos de azar.

Não basta colocar no anúncio uma mensagem discreta recomendando “jogo responsável' depois de utilizar toda a força emocional do futebol para convencer o torcedor a apostar. Também não é aceitável transformar cada partida em uma prateleira de palpites sobre gols, cartões, escanteios e desempenho individual. O torcedor deixou de ser tratado apenas como apaixonado pelo clube. Passou a ser visto como cliente de uma indústria que lucra quando ele perde.

A defesa dos clubes seria mais respeitável se viesse acompanhada de propostas duras: proibição da publicidade em horários acessíveis a crianças e adolescentes; fim da participação de influenciadores e ídolos nas campanhas; limites obrigatórios para depósitos e perdas; bloqueio imediato de usuários endividados ou inscritos em programas sociais; períodos compulsórios de afastamento; controle rigoroso das plataformas; financiamento do tratamento de dependentes e responsabilização das empresas pelos danos provocados.

Se essas barreiras não forem suficientes, a proibição dos cassinos online deve, sim, ser considerada. O Estado não pode permanecer passivo quando uma atividade econômica adoece parte da população. Arrecadação tributária, patrocínio de camisa e contratos publicitários não podem funcionar como licença para explorar vulnerabilidades humanas.

Os clubes têm direito de defender seus interesses financeiros. A sociedade também tem o direito de cobrar responsabilidade de instituições que movimentam paixões, influenciam crianças e falam diariamente com milhões de pessoas. Quem carrega o escudo de uma grande torcida não pode fechar os olhos para o sofrimento provocado por empresas estampadas em sua camisa.

O futebol precisa escolher de que lado deseja ficar. Do lado das plataformas que pagam milhões ou das famílias que perdem dinheiro, paz, saúde e, em situações extremas, a própria vida. Quando o lucro entra em campo contra a dignidade humana, não deveria existir dúvida sobre quem merece a defesa dos grandes clubes.

 

 

JOSé CâNDIDO

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