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O que esperar da injeção aplicada uma vez por ano que baixa o pior tipo de colesterol

Terapia gênica baixou significativamente níveis de Lp(a) em estudo; resta saber seu efeito na prevenção de infarto e AVC

O que esperar da injeção aplicada uma vez por ano que baixa o pior tipo de colesterol

No fim de agosto, num dos maiores congressos de cardiologia do mundo, médicos assistiram a algo que soava como ficção científica: uma picada anual capaz de derrubar em até 97% um dos fatores de risco mais traiçoeiros para infarto e AVC. Poucos dias depois, veio a ducha de água fria. O primeiro grande estudo desenhado para provar que baixar exatamente esse fator salva vidas simplesmente não funcionou.

O protagonista dessa história tem nome e sigla: lipoproteína(a), ou Lp(a). Pense nela como uma prima distante e mal-comportada do colesterol LDL, o famoso “colesterol ruim”. A Lp(a) é, em 80% a 90% dos casos, herança genética pura. Você nasce com ela alta ou baixa, e não há dieta, academia ou estatina que a baixe de forma significativa.

Estima-se que uma em cada cinco pessoas no mundo tenha níveis elevados de Lp(a) — a maioria sem fazer ideia. Ela não dá sintomas, quase nunca aparece nos exames de rotina e, quando alta, acelera de forma silenciosa o entupimento das artérias, favorece a formação de coágulos e endurece as válvulas do coração.

Durante décadas, a medicina soube apontar esse vilão, mas assistiu de mãos atadas: não existia remédio específico para combatê-lo.

Daí o entusiasmo com novas linhas de pesquisa e desenvolvimento de moléculas. Nesse contexto, uma classe inédita de medicamentos aprendeu a fazer algo disruptivo: em vez de tentar limpar a Lp(a) do sangue, a droga entra no fígado e “desliga” a fábrica que a produz, silenciando o gene responsável pela operação.

É o chamado silenciamento gênico. Os números impressionam: quedas de 80%, 90%, agora 97%, com uma ou duas aplicações por ano.]

Inov(ação)

O estudo com a nova terapia, publicado na revista científica The Lancet e apresentado no Congresso Europeu de Cardiologia, é um bom retrato desse avanço. Denominada Kylo-11, a molécula foi testada em 70 voluntários saudáveis na China.

Uma única injeção reduziu a Lp(a) de forma proporcional à dose — de 53% nas quantidades menores a 97% nas maiores dosagens —, e o efeito se manteve por um ano. Não houve reações no local da aplicação nem efeitos adversos atribuídos ao remédio.

É, porém, um estudo de fase 1: pequeno, curto e voltado apenas a testar segurança e efeito biológico. Ele ainda não mede o que de fato importa — se as pessoas infartam menos.

E aqui entra a ducha fria. Poucos dias antes, a farmacêutica Novartis anunciou o resultado do Lp(a)HORIZON, o primeiro grande estudo de desfecho cardiovascular com uma droga desse tipo, o pelacarsen.

Foram mais de 8 mil pacientes com doença cardíaca e Lp(a) elevada, acompanhados por anos. O remédio baixou a Lp(a) como prometido — mas não reduziu o número de infartos, AVCs e mortes. O objetivo principal, o que realmente conta, não foi alcançado.

O tropeço é importante e merece ser explicado sem rodeios. Baixar um número no exame não é a mesma coisa que salvar vidas — e só um estudo grande e demorado consegue provar essa ponte.

No caso do pelacarsen, ela não se sustentou. As razões ainda serão debatidas: talvez a redução não tenha sido profunda o bastante, talvez o benefício só apareça em quem parte de níveis muito mais altos, talvez a relação entre Lp(a) e coração seja mais complexa do que se imaginava. Ciência séria também avança quando descarta caminhos.

Seria um erro, no entanto, enterrar o assunto. Um estudo que falha fecha um capítulo, não o livro. Outras moléculas mais potentes e duradouras — o próprio Kylo-11 e outras já em fases mais avançadas de pesquisa — seguem sendo testadas justamente para responder à pergunta que o pelacarsen deixou no ar: será que uma redução mais profunda, de 90% ou mais, muda o destino do coração? Devemos ter as respostas nos próximos anos.

Enquanto isso, fica uma lição valiosa. Se há histórico de infarto ou AVC precoce na sua família, vale conversar com o médico sobre medir a Lp(a) ao menos uma vez na vida (o exame é simples e barato). Saber que ela está alta não muda, por ora, o tratamento disponível, mas prepara o terreno para quando esses remédios chegarem à farmácia e reforça a importância das medidas já conhecidas para prevenir problemas cardiovasculares.

 

BATANEWS/VEJA

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