Antecipar-se às ameaças biológicas é uma questão de segurança sanitária | Claudio Lottenberg
Febre do Nilo Ocidental acende sinal de alerta sobre o impacto das mudanças climáticas na saúde pública
A confirmação de quatro casos humanos de febre do Nilo Ocidental no Brasil em 2026 — dois em São Paulo e dois em Santa Catarina, com um óbito — acendeu um sinal de alerta para a saúde pública nacional. Embora ainda seja uma doença rara no país, os registros reforçam a necessidade de ampliar a vigilância e preparar os serviços de saúde para reconhecer precocemente suas manifestações.
A febre do Nilo Ocidental é causada por um vírus transmitido principalmente por mosquitos do gênero Culex, os conhecidos pernilongos ou muriçocas. Diferentemente da dengue, cujo principal vetor é o Aedes aegypti, sua transmissão ocorre em um ciclo que envolve mosquitos e aves. Seres humanos e cavalos podem ser infectados, mas, em geral, não mantêm a cadeia de transmissão.
A dinâmica dessa infecção é influenciada por fatores ambientais. Temperaturas mais elevadas e alterações no regime de chuvas podem favorecer a reprodução dos mosquitos, encurtar o ciclo dos vetores e acelerar a multiplicação do vírus em seu organismo. O calor também pode reduzir o chamado período de incubação extrínseca, isto é, o intervalo entre o momento em que o mosquito adquire o vírus e aquele em que se torna capaz de transmiti-lo.
As alterações no regime de chuvas tornam o cenário ainda mais complexo. Inundações podem deixar pontos de acúmulo de água, enquanto estiagens prolongadas reduzem o fluxo de rios e córregos e podem formar áreas de água parada, frequentemente ricas em matéria orgânica. Na ausência de saneamento adequado, manejo ambiental e planejamento urbano voltado à adaptação climática, multiplicam-se as condições favoráveis à proliferação de vetores.
Diante dessa realidade, a preparação das cidades e dos sistemas de saúde não pode ser apenas reativa. É necessário integrar a vigilância de casos humanos, equinos, aves e mosquitos; ampliar a capacidade laboratorial; preparar os profissionais para reconhecer manifestações neurológicas; e fortalecer a articulação entre saúde, meio ambiente, agricultura e saneamento. Essa é, na prática, a abordagem de Saúde Única: compreender que a proteção das pessoas depende também do cuidado com os animais e com o ambiente.
A experiência recente mostrou o custo humano, social e econômico de esperar que uma ameaça sanitária adquira grandes proporções para somente então agir. Em um mundo marcado por mudanças climáticas, intensa mobilidade e transformações ambientais, antecipar riscos biológicos deixou de ser apenas uma escolha científica. Tornou-se uma responsabilidade permanente do Estado e uma condição para a segurança sanitária da sociedade.
BATANEWS/VEJA

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