Antes das palavras, o acolhimento: alfabetização avança em MS e chega a 66% das crianças
Com os 79 municípios integrados ao MS Alfabetiza, Estado avançou de 47,4% para 66% de alunos alfabetizados na idade adequada; experiência de famílias e professores mostra como formação, acompanhamento e vínculo escolar aparecem por trás dos indicadores.
Antes de aprender a juntar letras e formar palavras, Luiz Otávio precisou vencer outra dificuldade: conseguir ficar na escola. Quando entrou no 1º ano da Escola Estadual Ulisses Serra, em Campo Grande, em 2025, chorava bastante e enfrentava problemas para se adaptar à nova rotina.
A mãe, Nilza de Souza Benevides, lembra que o acolhimento da professora alfabetizadora Anna Paula Pedrozo foi decisivo naquele início. “Ele chorava bastante e teve muitos problemas no começo. Ela soube acolhê-lo e trazê-lo para o mundo escolar”, conta.
É justamente nesse começo da trajetória escolar que o Governo de Mato Grosso do Sul, sob a gestão de Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição, concentra uma de suas principais políticas educacionais. Por meio do MS Alfabetiza, o Estado articula os 79 municípios para que crianças aprendam a ler e escrever na idade adequada e não carreguem para os anos seguintes dificuldades que tendem a se acumular.
O resultado mais recente mostra avanço: Mato Grosso do Sul chegou a 66% das crianças alfabetizadas ao final do segundo ano do Ensino Fundamental. Em 2023, eram 47,4%. Em 2024, 55,8%.
A evolução é expressiva, mas o próprio indicador também revela o desafio que permanece: aproximadamente uma em cada três crianças ainda não atingiu o padrão esperado de alfabetização na idade adequada.
Isso significa que o avanço precisa vir acompanhado de uma pergunta permanente: quem são as crianças que continuam ficando para trás e o que precisa ser feito para alcançá-las?
Quando as letras começam a fazer sentido
O Indicador Criança Alfabetizada avalia os estudantes ao final do segundo ano do Ensino Fundamental. Para alcançar o padrão esperado, a criança precisa conseguir ler palavras, frases e pequenos textos, localizar informações, compreender sentidos básicos e produzir textos simples, como bilhetes ou convites.
É uma etapa aparentemente elementar, mas que sustentará praticamente tudo o que virá depois. Sem leitura e escrita, aumentam as dificuldades para acompanhar matemática, ciências, história e as demais áreas do conhecimento.
Na sala de aula de Anna Paula Pedrozo, professora concursada há 21 anos e com mais de 13 anos de experiência em turmas de 1º e 2º ano, esse processo começa pela identificação das diferenças entre os alunos.
“Realizo uma avaliação diagnóstica para conhecer a realidade de cada aluno e, em seguida, proponho atividades diferenciadas que favoreçam a participação de todos”, explica.
Essas diferenças importam porque as crianças não chegam à escola partindo do mesmo lugar. Algumas convivem desde cedo com livros, histórias e adultos que podem acompanhar suas atividades. Para outras, a escola será o primeiro espaço de contato regular com práticas de leitura.
Renda, escolaridade familiar, acesso à Educação Infantil e condições de vida podem interferir no ritmo de aprendizagem. Alfabetizar, portanto, também significa enfrentar desigualdades que começam antes mesmo do primeiro dia no Ensino Fundamental.
No caso de Luiz Otávio, Nilza percebeu que o trabalho pedagógico caminhou junto com o acolhimento. “A pedagogia dela é muito boa. Ela ensinou muito bem o Luiz Otávio e ajudou bastante no desenvolvimento dele”, afirma.
A relação entre a família e a professora ganhou ainda um desdobramento incomum: atualmente, Nilza é aluna de Anna Paula no magistério. A mãe passou a conhecer como estudante o trabalho da educadora que havia acompanhado o filho.
“Tenho muito a agradecer à professora Anna Paula. Hoje tenho o prazer de estudar com ela e de tê-la como minha professora”, diz.
Professor também precisa continuar aprendendo
Se cada criança aprende de uma maneira, o professor também precisa encontrar diferentes formas de ensinar. É nesse ponto que Anna Paula destaca uma das principais frentes do MS Alfabetiza: a formação continuada.
“Ter um momento de pausa para realizar uma formação específica em alfabetização é fundamental. Ao dialogar com as colegas, percebo que nossas angústias são as mesmas”, afirma.
Segundo ela, o contato com outros profissionais amplia as possibilidades dentro da própria sala de aula.
“Quando ficamos focadas apenas na própria sala, torna-se mais difícil implementar novas intervenções. No programa, conseguimos compartilhar experiências e conhecer caminhos didáticos viáveis para aplicar com os alunos.”
Uma das referências utilizadas nas formações é o conceito de “alfaletrar”, que procura integrar o aprendizado do sistema de escrita às situações reais em que a leitura e a escrita são utilizadas.
“Não se trata de um método rígido ou exclusivo. A proposta é ensinar letras, sons e o sistema de escrita ao mesmo tempo em que a criança vivencia práticas reais de leitura e escrita no cotidiano”, explica Anna Paula.
Para a professora, a troca entre os educadores também reduz o isolamento de quem precisa encontrar soluções diariamente diante de turmas heterogêneas. “Ao longo do programa, conseguimos colocar em prática muitas estratégias que, sozinha, eu dificilmente conseguiria criar.”
Um Estado, 79 municípios
O MS Alfabetiza foi instituído em 2021 e funciona em regime de colaboração entre o Governo do Estado e os 79 municípios. Essa articulação é particularmente importante nos primeiros anos do Ensino Fundamental, etapa em que grande parte das matrículas está nas redes municipais.
O programa trabalha com formação de professores e gestores, avaliação e monitoramento da aprendizagem, fortalecimento da gestão escolar, distribuição de materiais complementares e cooperação entre as redes.
A lógica é fazer com que um município com menor estrutura administrativa ou financeira não precise enfrentar sozinho os desafios da alfabetização.
Riedel resume essa estratégia na definição de metas comuns e no acompanhamento dos resultados. Segundo o governador, a cooperação envolve formação, materiais, avaliação e apoio às redes com desempenhos diferentes.
Em 2025, o Prêmio Escolas Destaque destinou R$ 3,6 milhões para reconhecer unidades com bons resultados e apoiar escolas que ainda precisavam avançar. Trinta escolas selecionadas tiveram previsão de receber R$ 80 mil cada, enquanto outras 30 unidades apoiadas receberiam R$ 40 mil.
A proposta não é apenas premiar bons indicadores, mas aproximar escolas com resultados diferentes para que experiências pedagógicas possam ser compartilhadas.
Para a coordenadora estadual do MS Alfabetiza, Maria Gorete Siqueira Silva, o reconhecimento está ligado justamente às práticas desenvolvidas nas escolas.
“Os resultados refletem no avanço da alfabetização das crianças, no fortalecimento das práticas pedagógicas, no aperfeiçoamento da gestão escolar e na consolidação de uma cultura de acompanhamento e uso dos resultados educacionais para a tomada de decisões”, afirma.
De 47,4% para 66%
Os indicadores permitem enxergar a dimensão estadual do trabalho que professores como Anna Paula realizam diariamente.
Entre 2023 e 2024, Mato Grosso do Sul passou de 47,4% para 55,8% de crianças alfabetizadas na idade adequada. O crescimento proporcional de 17% naquele período foi o segundo maior entre os estados brasileiros e deixou o resultado três pontos acima da meta estadual de 52,8%.
Em 2025, o índice alcançou 66%, resultado divulgado em março de 2026. Na mesma ocasião, o Governo do Estado e 43 municípios sul-mato-grossenses receberam o Selo Ouro Nacional do Compromisso com a Alfabetização.
Ao comentar a evolução do indicador, Riedel atribuiu o resultado à atuação conjunta entre Estado, municípios e profissionais da educação.
“Educação é um dos focos da nossa gestão”, afirmou o governador ao destacar a parceria com as prefeituras e o MS Alfabetiza como componentes do avanço.
Os números, porém, não são resultado apenas de decisões administrativas. Entre uma meta estabelecida pelo governo e uma criança que finalmente consegue ler existe uma extensa cadeia formada por professores, coordenadores, gestores escolares e famílias.
É dentro da sala de aula que a política pública precisa se transformar em aprendizagem.
O que acontece depois de aprender a ler
A alfabetização costuma ser associada apenas aos primeiros anos da escola. Suas consequências, no entanto, atravessam toda a vida.
Uma criança que não domina leitura e escrita tende a encontrar mais dificuldades para continuar aprendendo, compreender conteúdos, utilizar tecnologias e avançar na escola.
Quando a defasagem não é corrigida, pode contribuir posteriormente para abandono escolar, menor qualificação profissional e dificuldades de inserção no mercado de trabalho.
Por isso, o MS Alfabetiza prevê também ações para crianças do terceiro ao quinto ano que chegaram a essas etapas sem o domínio esperado da leitura e da escrita.
Alfabetizar na idade adequada não significa preparar uma criança de sete anos para uma profissão. Significa oferecer a ferramenta que permitirá que, no futuro, ela possa escolher caminhos — do Ensino Médio à formação técnica, da universidade ao mundo do trabalho.
Na definição de Riedel, “a escola se torna, nesse sentido, a primeira ponte entre a origem familiar e o futuro que cada criança poderá construir”.
O desafio da criança que ainda não chegou lá
A média estadual pode esconder diferenças entre municípios e escolas, além das realidades encontradas em áreas urbanas, comunidades rurais, territórios indígenas e regiões de fronteira.
Chegar às crianças que permanecem abaixo do padrão esperado exigirá diagnóstico por escola, formação continuada, apoio aos professores, materiais adequados, acompanhamento individual e estratégias de recomposição da aprendizagem.
Há ainda um segundo desafio: garantir que atingir o indicador mínimo não seja o ponto final. Uma criança pode estar formalmente alfabetizada e ainda precisar desenvolver fluência, vocabulário, interpretação e capacidade de produzir textos mais complexos.
O salto de 47,4% para 66% indica que Mato Grosso do Sul avançou. “O terço que permanece fora do padrão esperado mostra, ao mesmo tempo, quanto ainda existe por fazer”, explica o governador.
Para Luiz Otávio, aquela trajetória começou antes mesmo das primeiras palavras lidas sozinho. Começou quando encontrou quem o ajudasse a atravessar o choro dos primeiros dias e permanecer na escola.
É nesse espaço entre acolher uma criança e ensiná-la a decifrar as palavras que números como 66% deixam de ser apenas estatística. Porque, para cada menino ou menina que aprende a ler, abre-se também a possibilidade de compreender um mundo que até então permanecia, em grande parte, escrito por outros.
BATANEWS/ASSESSORIA DE IMPRENSA

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