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Colonoscopia: benefícios superam de longe os riscos

Publicada em: 05/08/2026 09:35 -

Por que o exame que detecta o câncer continua sendo essencial, mesmo diante de casos raros de complicação

Na última semana, notícias sobre uma morte após perfuração intestinal durante uma colonoscopia reacenderam uma pergunta importante: esse exame é seguro? A resposta, apoiada em décadas de estudos científicos, é sim. Mas vale entender os números para colocar o medo recente em perspectiva.

A colonoscopia é hoje uma das ferramentas mais poderosas da medicina para prevenir doenças. Diferentemente da maioria dos exames, ela não serve só para descobrir um câncer que já existe; ela pode impedir que o câncer chegue a se formar, já que permite retirar os pólipos (pequenas lesões no intestino) antes que se transformem em tumor.

Um grande estudo que reuniu dados de quase 4,7 milhões de pessoas mostrou que quem faz a colonoscopia de rotina tem 52% menos chance de desenvolver câncer de intestino e 62% menos chance de morrer por causa dele. Mesmo nos estudos mais rigorosos já feitos sobre o tema, a redução na chance de morte chega a 26%.

Poucos exames na medicina têm um impacto tão grande sobre uma das doenças que mais matam por câncer no mundo. Especificamente no Brasil, este tipo de câncer é o segundo mais frequente tanto em mulheres, estando atrás do câncer de mama, como no homem onde o câncer de próstata é o mais frequente.

É dentro desse contexto que o caso recente precisa ser entendido. A perfuração do intestino é uma complicação real, conhecida pela medicina há muito tempo, mas rara. O levantamento mais completo já feito sobre esse tipo de complicação reuniu quase 38,5 milhões de colonoscopias realizadas em 24 países e chegou a um número: cerca de 5 perfurações a cada 10 mil exames.

Na prática, isso significa que a grande maioria dos médicos que fazem colonoscopia pode realizar milhares de exames ao longo de toda a carreira sem que esse problema aconteça uma única vez.

Por que a perfuração acontece? Ela pode ocorrer pela pressão do aparelho sobre a parede do intestino, pelo ar necessário para abrir bem o cólon durante o exame, ou durante a própria retirada de um pólipo maior. As partes mais tortuosas do intestino, como o sigmoide, concentram a maioria dos casos.

É importante entender que o simples fato de a complicação ter acontecido não quer dizer, sozinho, que houve erro médico: trata-se de um risco já conhecido e aceito pela medicina em todo o mundo, e avaliar se houve falha depende de uma análise cuidadosa do caso, do tempo até o diagnóstico e das condições de saúde da pessoa.

Outro ponto é que, mesmo ocorrendo a perfuração, medidas endoscópicas ou cirúrgicas podem tratar a complicação com bons resultados, e a maioria dos pacientes se recupera bem quando o problema é identificado e conduzido a tempo.

Isso não significa minimizar a gravidade quando uma complicação acontece; significa entender que a resposta certa diante de um evento raro e grave não é deixar de fazer um exame que salva vidas, e sim, garantir que ele seja feito nas melhores condições possíveis: por profissionais bem treinados, em serviços bem estruturados, com protocolos claros para identificar rapidamente qualquer problema e agir logo que ele surgir.

Investir em treinamento contínuo das equipes, em regras claras dentro dos hospitais e clínicas, e em estrutura adequada para lidar de imediato com qualquer intercorrência é o que realmente reduz os riscos mais sérios; muito mais do que simplesmente evitar o exame.

Quem deixa de fazer a colonoscopia por medo de uma complicação rara acaba correndo, na prática, um risco bem maior: o de não descobrir a tempo um câncer que, na maioria das vezes, não dá nenhum sintoma até estar em fase avançada.

Assim, a colonoscopia continua sendo um exame seguro, com benefícios muito maiores que seus riscos — e casos isolados, por mais dolorosos que sejam, não devem ser generalizados para toda uma população que se beneficia todos os dias desse exame.

Por isso recomendamos: faça a sua colonoscopia!

 

BATANEWS/REDAçãO

* Marcelo Averbach é coloproctologista, membro titular da Sociedade Brasileira de Coloproctologia (SBCP) e médico do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo

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