As explicações da psicologia para a raiva instantânea do "outro" e a xenofobia que alimenta discursos na internet
Na Copa do Mundo, escrevi nesta coluna sobre as lições psicológicas da seleção argentina: resiliência, coesão e capacidade de suportar pressão. Mas, enquanto o futebol acontecia em campo, outro jogo era disputado nas redes sociais. E este diz muito mais sobre nós do que sobre a Argentina.
Desde o início do torneio, uma narrativa foi sendo construída. A cada vitória argentina, multiplicavam-se as acusações de que a FIFA favorecia Messi, de que havia uma conspiração para levar a Argentina ao título, de que árbitros e dirigentes trabalhavam para beneficiar a seleção.
Quando veio a derrota para a Espanha, seria razoável imaginar que essa teoria perderia força. Afinal, se existia uma conspiração, ela claramente havia fracassado. Mas isso não aconteceu.
A narrativa apenas mudou de roupa. Se antes o problema era uma suposta proteção da FIFA, depois passou a ser “o caráter dos argentinos”. Os fatos mudaram. A conclusão permaneceu exatamente a mesma. Foi justamente aí que o futebol deixou de ser futebol.
Em uma discussão no LinkedIn — uma rede que deveria privilegiar conversas profissionais e ponderadas — foi possível observar esse processo acontecendo diante dos nossos olhos. O post inicial reunia episódios isolados da Copa para sustentar uma narrativa muito maior: a de que a imagem da seleção argentina e de seu principal jogador era uma construção artificial, baseada em favorecimentos, comportamento antidesportivo e um prestígio que nunca teriam merecido.
Não era apenas uma crítica a um lance ou a uma atitude. Era um esforço para desmontar completamente os méritos de uma equipe que havia acabado de perder uma final extremamente disputada. A mensagem implícita era clara: eles nunca foram tão bons quanto acreditávamos — e, por extensão, nós nunca fomos inferiores a eles.
Foi nos comentários, porém, que aconteceu a transformação mais preocupante. A discussão deixou de ser sobre futebol e passou a ser sobre nacionalidade. Aparecem frases como “Messi só agiu como um argentino padrão”, “gente da pior laia”, “está no sangue”, “agora todos sabem como eles são” e “poucos argentinos se salvam”.
Em poucos comentários desapareciam Messi e a seleção. Surgia uma única categoria: os argentinos. Não eram mais indivíduos; era um povo inteiro.
E o fenômeno não ficou restrito ao mundo virtual. Reportagens mostraram argentinos vivendo no Brasil relatando hostilidade por sua nacionalidade, enquanto circulavam comentários defendendo até mesmo que a Argentina não deveria disputar a próxima Copa do Mundo.
Quando as pessoas deixam de discutir comportamentos e passam a questionar a legitimidade de um povo inteiro, já não estamos diante de rivalidade esportiva. Estamos diante de xenofobia.
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Respostas na mente
Vamos à psicologia para entender (mas não justificar) esse fenômeno. Um dos mecanismos envolvidos é o viés de homogeneização do grupo externo (outgroup homogeneity bias). Nós enxergamos o grupo ao qual pertencemos como diverso: há brasileiros honestos e desonestos, educados e mal-educados, racistas e antirracistas.
Mas, quando olhamos para “o outro”, desaparecem as diferenças individuais. “Eles” passam a ser todos iguais. Outro mecanismo é o raciocínio motivado. Primeiro escolhemos a conclusão. Depois selecionamos as evidências que parecem confirmá-la.
Enquanto a Argentina vencia, aquilo era interpretado como prova de favorecimento da FIFA. Quando perdeu, a narrativa não mudou para “talvez estivéssemos errados”. Apenas encontrou outra justificativa: “mereciam perder porque são arrogantes, violentos e racistas”.
A conclusão já estava pronta; apenas trocaram-se os argumentos.
Esses vieses sempre fizeram parte da natureza humana. O que mudou foi a velocidade, o furor e as consequências com que são alimentados. As plataformas digitais descobriram que a indignação mantém nossa atenção por mais tempo do que nuance.
Um vídeo de cinco segundos é repetido milhares de vezes. Uma expressão facial vira prova de arrogância. Um empurrão passa a resumir o caráter de um povo inteiro. Aos poucos, deixamos de assistir aos acontecimentos e passamos a assistir apenas aos fragmentos que confirmam aquilo em que já estávamos inclinados a acreditar.
O algoritmo amplia preconceitos que já existiam, oferecendo uma sensação enganosa de que chegamos sozinhos às nossas conclusões.
Há outra ironia nesse processo. Muitos passaram a idealizar nossos próprios ídolos em contraste com Messi, como se fossem exemplos moralmente impecáveis. Nossa memória tornou-se seletiva.
Pelé continuará sendo um dos maiores jogadores da história, mas também foi um ser humano cheio de contradições — basta lembrar que demorou anos para reconhecer uma filha. Não diminui sua genialidade em campo; apenas nos lembra de que pessoas extraordinárias continuam sendo pessoas.
O que estamos vendo, em tempo real, é a facilidade com que uma sociedade pode abrir mão da complexidade para abraçar caricaturas. Primeiro deixamos de julgar indivíduos e começamos a julgar povos. Depois passamos a atribuir características morais permanentes a milhões de pessoas.
A história mostra, repetidas vezes, onde esse tipo de raciocínio pode nos levar. Toda forma de preconceito começa exatamente dessa maneira: quando deixamos de enxergar pessoas e passamos a enxergar categorias.
É muito mais confortável acreditar que o problema mora do outro lado da fronteira do que reconhecer nossas próprias falhas, nosso próprio racismo, nossa própria violência e nossa própria incapacidade de conviver com quem é diferente.
Quando aceitamos que milhões de pessoas possam ser resumidas por frases como “é assim que eles são”, estamos revelando algo muito preocupante sobre nós mesmos. É assim que a xenofobia deixa de parecer um absurdo e passa a soar como bom senso.
* Ilana Pinsky é psicóloga clínica, doutora pela Unifesp. É autora de Saúde Emocional: Como Não Pirar em Tempos Instáveis (Contexto), entre outros livros. Foi consultora da OMS e da OPAS e professora da Universidade Colúmbia. Siga a colunista no Instagram: @ilanapinsky_
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